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A questão do público-alvo
O número de distribuições live-cd voltadas para usuários iniciantes vem aumentando - e sendo criticado - cada vez mais. Entretanto, os defensores destas distros argumentam que eles possuem Liberdade, assegurada pela GPL, de criar uma nova distribuição. De fato, essa Liberdade existe e ninguém pode revogá-la mas, o que esses desenvolvedores precisam entender é que, se a Liberdade for usada de forma incorreta, ela pode acabar atrapalhando e prejudicando justamente quem eles querem atingir - os usuários iniciantes.
Muitas pessoas acreditam que criar uma nova distribuição é simplesmente seguir um conjunto de instruções e scripts pré-configurados que vão gerar uma imagem ISO. O processo de desenvolvimento acaba quando eu faço upload dessa imagem para um servidor e anuncio seu lançamento em um veículo de mídia especializado com grande audiência. O desenvolvimento, no entanto, está longe de terminar aí e, de agora em diante, envolve questões vitais que nada têm a ver com Informática ou Software Livre.
Se você quer criar sua própria distribuição, a primeira coisa que deve responder é: “Quem eu quero que utilize o meu sistema?”. Se você respondeu algo como “Todo mundo”, então as coisas vão mal. Isso ocorre porque, para qualquer coisa, existe o chamado público-alvo. São aquelas pessoas que, dentre todas as pessoas que existem, eu quero que usem a minha distribuição.
A primeira coisa que vem à mente é o conceito de usuários Iniciantes, Intermediários e Avançados. Embora seja um conceito válido, que eu vou desenvolver daqui a pouco, esse não é o único. Por exemplo: digamos que você queira desenvolver uma distribuição para médicos. Você não sabe se o médico em questão é um usuário iniciante, intermediário ou avançado, mas você incluiria nessa sua distribuição aplicativos e documentação relacionados àquilo que o médico faz: o exercício da Medicina. Você não colocaria um nmap, por exemplo.
Quando falamos de usuários em geral, temos que considerar que estes são divididos em dois grupos distintos: usuários domésticos, que são as pessoas que usam seu sistema em casa, e usuários corporativos, que são empresas. Entre outras coisas, usuários domésticos querem os programas mais recentes, usuários corporativos querem os programas mais estáveis, o que não significa, necessariamente, os mais recentes. Mas vamos continuar com a nossa divisão iniciante - intermediário - avançado.
Usuários iniciantes
O concento de "iniciante" é relativo. Um usuário que mexe no Registro, remove vírus à unha e personaliza seu uxtheme.dll pode ser considerado um usuário avançado no sistema Windows, mas se este usuário nunca entrou em contato com um sistema GNU/Linux, então ele é iniciante nesse sistema.
Distribuições para iniciantes devem ser fáceis de usar. De preferência, live-cds. Deve-se evitar ao máximo usar o modo texto e o sistema deve possuir assistentes gráficos que, não que façam tudo para o usuário, mas que permitam que ele possa fazer o que quer com o mínimo de esforço possível. A aparência do sistema deve-lhe ser confortável e familiar.
Compiladores não são necessários, pois o usuário, por definição, não sabe compilar, e prefere pacotes já prontos.
Usuários intermediários
Se um usuário já tem alguma experiência com distribuições para iniciantes e já se aventurou nela a ir além do que o autor da distribuição propôs - por exemplo, instalou a distribuição no disco rígido ou instalou algum pacote sem a utilização de um assistente, ele pode estar indo para a categoria dos usuários intermediários. Com a predominância do formato RPM e apenas com discos de instalação no HD, distribuições para intermediários ainda priorizam o modo gráfico e possuem assistentes para auxiliar o usuário no que ele precisa, mas estes assistentes não fazem tudo que o usuário quer com um clique, outrossim, permitem que ele possa configurar as opções principais e possa explorar, por conta própria, as outras opções. O modo texto pode ser usado para fazer tarefas mínimas, mas a maioria das coisas pode ser feita no modo gráfico. Compiladores podem ser incluídos, mas não instalados por padrão.
Usuários avançados
Quando alguém passa do formato RPM, ele se torna um usuário avançado. Esse tipo de usuário tem necessidades específicas. Eles levam o termo Liberdade ao extremo. Por exemplo: eles dizem que preferem digitar comandos e editar arquivos de configuração manualmente porque front-ends gráficos que façam isso podem conter erros de programação e esses erros podem afetar o resultado final. Eles preferem que, ao iniciar, a distribuição os deixe num shell e que eles apenas inciem o modo gráfico se, de fato, precisarem dele. Alguns conseguem ler e-mails, navegar na Internet, digitar textos, ouvir músicas e conversar em messengers sem ter que iniciar o X.org. Compiladores são praticamente obrigatórios.
Assim, você percebe que a necessidade do usuário avançado é diferente da do iniciante. Você não criaria uma distribuição para usuários avançados com um programinha gráfico que mostrasse um botão com o texto “Clique aqui para baixar, instalar e configurar o driver da sua placa de vídeo automaticamente”, por exemplo, sob pena de ser linxado ao sair de casa.
Logo, vemos que cada grupo de usuários possui necessidades distintas, e essa é a primeira coisa que você deve levar em conta ao criar uma distro: do que o meu usuário precisa? O segredo é: pense como seu usuário pensaria.
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