| |
|
|
|
|
Escrito por André Ferreira Machado
|
|
01-Dez-2007 |
Rede social ou vício psicológico? O que está por trás do mais bem-sucedido empreendimento do Google no Brasil?
Apostilhas grátis. Foi assim que tudo começou. Em sua empresarial
comunidade Windows Vs Linux, Wellington Rocha fazia promoções e
oferecia apostilas grátis para os membros. Entretanto, algumas pessoas
descobriram que aquelas apostilas tinham algo a mais que conhecimento.
E, então, iniciou-se uma Guerra. Uma Guerra que mudaria a vida de
muitas pessoas.
Eu era um cara recém-saído de meu segundo curso de informática que havia sido convidado para o Orkut pela irmã da prima da minha cunhada. Na época, eu tinha apenas o Windows XP no meu HD e admirava o Linux. Por isso, estava na comunidade Eu Odeio Windows, onde várias pessoas, incluindo o Timm e a Fabiane, postavam regularmente.
No entanto, eu percebi que o volume de posts daquela comunidade estava diminuindo. Timm, Fabiane e os outros não apareciam mais. Onde eles estavam? Certo dia, Fabiane nos mandou um scrap anunciando uma nova comunidade: Linux vs. Windows.
Entrei. E logo vi que a maioria das pessoas que havia conhecido estavam lá. Logo, interei-me das intenções malignas do Rocha, que distribuía vírus para os membros através de suas apostilas e que os membros fundadores haviam sido arbritariamente expulsos. Ficávamos lá, discutindo Microsoft e Linux. Não sou ninguém para definir quem é o vilão da história, mas o fato é que o número de linuxers era muito maior, e tínhamos a obrigação de defender o sistema livre. Por isso, o pingüim quase sempre vencia.
Nesse meio tempo, eu conheci o Daniel, pois também estava numa comunidade chamada Eu Amo o MS-DOS - e isso é verdade. Eu não sei exatamente COMO ele me encontrou, só sei que ele apareceu do nada numa noite no MSN. Ele pensava que eu era um hacker - sou, de certa forma - e pedia para que eu o ensinasse a fazer keyloggers, vírus e trojans. Nesse instante, eu o apresentei ao sistema livre e o convidei a entrar na comunidade. Hoje ele só usa Linux e se tornou um ateu fanático, que coloca frases em seu MSN (cuja utilização por ele contradiz toda filosofia do software livre) como "nenhuma religião é maior que a Verdade". Ele se tornou um desses caras que se recusa a ouvir uma opinião diferente porque pode descobrir que está errado, como todos os xiitas da LvW.
Então, um dia, ele voltou. Rocha entrara na comunidade e pedira desculpas pelo ocorrido, alegando problemas de saúde e que os fatos tinham sido causados pelo seu assistente. Os xiitas da comunidade, no entanto, nem quiseram saber, e Rocha, através de mass flag profile, deletou a comunidade e vários perfis. Inclusive o meu e o do Daniel.
Então, no dia seguinte, criamos outros perfis (eu fiz o favor de excluir minha conta Google e não pude recuperar o antigo) e houve outra guerra, com mais exclusões. Eles se referem a isso como "Ave Fenix", e você pode encontrar notícias sobre isso em alguns sites, como o Midia Independente. Com o perfil e a comunidade do Rocha excluídos, nos sagramos vencedores e nossa comunidade se diferenciou de todas as outras porque nos tornamos uma família. Não falávamos mais sobre sistemas operacionais mas, sim, sobre quaisquer coisas. Aprendemos muito uns com os outros e, acima de tudo, aprendemos a respeitar o outro lado, diga isso o Júlio C. Sanches, que trabalha na Microsoft e, em pouco tempo, conquistou o respeito e admiração de todos.A Linux vs. Windows se tornou uma miniatura de sociedade e, um estudo antropológico nesta comunidade, comprovaria a teoria de que toda a sociedade organizada... tende ao caos.
Picasso foi o "paciente zero". Troll refinado, insistia em obter seriais piratas, o que era proibido pelas nossas regras. Ele foi o primeiro a ser expulso. E, numa atitude notoriamente infantil, cada vez que alguém era expulso, mudávamos as regras. Numa sociedade madura, isso não deveria acontecer. Mas acontecia. Quando o Grunge trouxe um amigo gay seu para a comunidade, o Elson Jr. abriu um tópico onde chamava homossexuais de doentes. Ele foi expulso, e isso nos abalou. Eu trouxe o Octavier Matt para a Linux vs. Windows, e ele também foi expulso.
E, então, o Orkut se tornou um vício. Eu entrei para um curso de Eletrônica numa respeitada instituição de ensino estadual, que tem apenas o nome como valor, e rodei na cadeira de Eletricidade. Por quê? Por que eu, que durante a infância e adolescência fora um aluno exemplar, apenas queria ficar no Orkut, para ver qual seria o próximo post emocionante da Linux vs. Windows. Isso se deve a uma característica inerente a todo o ser humano: você não é ninguém, você não é famoso, e você quer ser reconhecido, porque você é um ser humano e precisa de afeto. E o afeto que eu não encontrava em casa, pois meu pai fica trabalhando e minha madastra agora mora na cada da mãe dela, que está doente, eu encontrava na tela do meu Athlon. Ser reconhecido, é isso que o ser humano quer. Postar um tópico e ver que, daqui a duas horas, ele terá mais de 100 respostas, para poder dizer para ninguém: "fui eu quem postei", póis isso é reconhecimento. Com isso, você se torna famoso, mesmo que seja em um grupo restrito de pessoas que ninguém conhece, falando sobre algo que ninguém quer saber.
Nesse meio tempo, eu conheci o Lauro e eu me envolvi num projeto de jogo em PHP que não deu certo, pois houve discordâncias. Na verdade, eu tentei iniciar outros projetos, mas não terminei nenhum deles, isso porque eu achava mais interessante ficar no Orkut lendo e respondendo tópicos a fazer algo útil. E não fui o único. A distribuição LW nem ao pepel chegou. Isso ocorre porque o Orkut exerce um fascínio e nos faz sermos exclusivos para ele, renunciando a tudo que está ao nosso redor. Nenhum projeto sério se desenvolve no Orkut, exceto, é claro, aqueles programas para encher os scrapbooks com spam e vírus.
Então, eu vi no site do meu provedor de Internet, o PS5, que a BrasilTelecom ia reajustar o preço e a anuidade passaria de 23 para mais de 100 reais. Tudo bem, pensei, pois pago apenas uma vez por ano. Mas aí eu pensei: com os cerca de 70 reais que pago todo o mês para a BrT mais essa anuidade, eu estaria gastando mais de 1000 reais por ano para ficar conectado à Internet. E o que eu estava fazendo nesse ano? Eu estava navegando no Orkut. Eu gastava 1000 reais por ano para acessar o Orkut!
Então, eu percebi que a Linux vs. Windows era uma perda de tempo, que os tópicos estavam ficando chatos e que lá só havia linuxers xiitas e ateus que compartilhavam da opinião de que só eles estão certos e todo o resto do mundo está errado. E o que eu estava fazendo ali?
Então, eu saí do Orkut.
Pelo que o Lauro falou, minha saída não foi comentada. Como suspeitei, poucas pessoas haviam notado.
Decidi que arranjaria algo para fazer. Mês passado, cerca de 1 mês sem Linux vs. Windows, eu consegui um estágio de telemarketing numa empresa ligada à (advinhe?) Brasil Telecom. Claro que eu já fui demitido porque não correspondi às espectativas corporativas mas, o que eu acho interessante é que, se eu ainda estivesse no Orkut, eu não teria ido duas vezes no mesmo dia a Porto Alegre para, de manhã, fazer uma entrevista e à tarde me matricular num curso exigido para o estágio que, agora, terei de fazer do mesmo jeito. Eu teria ficado na cama das 13 às 14 para acessar o Orkut das 15 às 16. Ou seja, minha vida mudou em um dia porque eu saí do Orkut.
Enfim, se você ficar tempo demais no Orkut, não terá tempo para fazer mais nada. Vai perder dinheiro usando uma plataforma defeituosa escrita numa linguagem proprietária para ter a ilusão de que é famoso só porque alguém respondeu um tópico que você postou. Qualquer site de humor mostra as pérolas que se encontram no Orkut. Eu não vou mais voltar pra lá, pois cresci e percebi, como todos vão perceber, que aquilo é só uma modinha que vai ser abandonada com o tempo. Como eu costumo dizer, pessoas inteligentes não estão naquele site.
E você, é inteligente?
Trackback(0)
Copyright 2007. All Rights Reserved. |
|